Nascida em Budapeste,
Hungria, Madalena Schwartz (1921-1993) chegou a Buenos Aires,
Argentina, em 1934, escapando da perseguição dos nazistas aos judeus, lá
vivendo até 1960, quando mudou-se para São Paulo, lugar que ficaria até o fim
de sua vida e onde aprenderia a fotografar, começando aos 45 anos, no icônico Foto
Cine Clube Bandeirante (FCCB).Um interesse que se prolonga por
muitos anos, em um registro personalíssimo de retratos do eclético mundo
cultural e social paulistano, dentro e fora do stablishment.
Com uma produção
fotográfica importante, até mesmo no que hoje poderíamos pensar em termos de
uma antropologia visual, essencialmente no início de retratos de intelectuais,
artistas plásticos, políticos e escritores, mostrados em seu primeiro livro Personae
(Funarte-Cia das Letras, 1997),Madalena Schwartz seguiupor
outros caminhos mais ousados, retratando travestis e transformistas, trabalho
publicado no livro Crisálidas (IMS, 2012) e agora com uma nova edição As
Metamorfoses Travestis e Transformistas na São Paulo dos anos 70 (IMS, 2021), que
mostra imagens da publicação anterior acrescidas de capítulos que trazem
pesquisas, ilustrações e fotografias sobre as experiências trans no Brasil, na
Argentina, Bolívia, Peru, Chile, Cuba, México e Venezuela.
Os portfólios latino-americanos
promovem um processo dialógico com as imagens de Madalena Schwartz, com
fotografias que registram as culturas travestis e transformistas em sincronismo
com a dela. As fotografias são oriundas do trabalho de coletivos como o Archivo
Quiwa, da Bolívia e o Archivo de la Memoria Trans, da Argentina,
dois grupos que buscam o resgate e valorização da memória trans em seus países,
formando acervos fotográficos constituídos por imagens vernaculares. Só este
último tem cerca de seis mil peças do início do século XX até os anos 1990.
Com uma exposição e o
livro, o Instituto Moreira Salles (IMS) comemora o centenário de
nascimento da fotógrafa, cujas imagens foram adquiridas para seu acervo em
julho de 1998. São cerca de 16 mil negativos em preto e branco e 450 cromos,
que se dividem em três núcleos: Personalidades; Povo do Norte e Nordeste e
Travestis e Transformistas. Madalena Schwartz é um dos nomes decisivos, dizem João
Fernandes, Diretor Artístico e Marcelo Araújo, Diretor-Geral do IMS,
quando pensamos nas grandes fotógrafas emigrantes como a polonesa Stefania
Bril (1922-1992); a alemã Alice Brill (1920-2013); a belga, Lily
Sverner (1934-2016);a inglesa Maureen Bisilliat e as suíças Claudia
Andujar e Hildegard Rosenthal(1913-1990), esta última
considerada por muitos a primeira fotojornalista do Brasil.
A trajetória da fotógrafa
é peculiar. Quando chegou a São Paulo, com o marido e os dois filhos, abriu uma
lavanderia com o nome de Irupê, no centro da cidade, na rua Nestor Pestana, uma
via conhecida por muitas casas noturnas. Em meados dos anos 1960, um de seus
filhos ganhou uma câmera fotográfica pela qual é atraída imediatamente e que a
levou ao já conhecido FCCB, que tinha como sócios seu conterrâneo Thomaz
Farkas (1924-2011), e os paulistas German Lorca (1922-2021) e Geraldo
de Barros (1923-1998) entre outros consagrados nomes. Sua prática seria nas
poucas quadras do percurso entre seu trabalho e sua residência, no Edifício
Copan,de Oscar Niemeyer (1907-2012) e Carlos Lemos,
onde fotografaria os travestis e transformistas na década seguinte.
Sua habilidade com os
retratos ganha notoriedade, indo trabalhar para várias revistas da Editora
Abril e para a Rede Globo de televisão, consolidando o que era apenas um hobby.
Segundo seu filho Jorge Schwartz, diretor do Museu Lasar Segall
em São Paulo: “minha mãe não resistia a um rosto interessante.”
Embora tenha retratado com extrema perícia inúmeras personalidades, como o
pintor japonês Manabu Mabe (1924-1997); o compositor baiano Caetano
Veloso; o arcebispo cearense Dom Helder Câmara (1909-1999) e a
escritora ucraniana Clarice Lispector (1920-1977) entre tantos, é no
recorte trans que este livro apresenta seu trabalho mais exclusivo.
Madalena se
profissionalizou como fotógrafa no início da década de 1970, impulsionada por
prêmios nacionais e uma medalha de ouro em uma exposição de fotoclubes em
Cingapura. Apesar de continuar a trabalhar em sua tinturaria (cuja renda
amenizava os altos e baixos da profissão) publicou em importantes revistas da
época, como a Íris Foto, Claudia e Status, entre outras.
Fez a primeira de suas muitas mostras individuais em 1974, no Museu de Arte
de São Paulo (MASP). Em 1983, recebeu o prêmio de fotografia da Associação
Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Apaixonada pelo teatro, Schwartz
fotografou personalidades do palco e das telas de televisão entre eles os
integrantes do grupo Dzi Croquettes* nos camarins e palco, o cantor mato
grossense Ney Matogrosso durante uma performance, a atriz alemã Elke
Maravilha (1945-2016); o performer e multiartista argentino Patrício
Bisso (1957-2019), seu vizinho no Copan, entre tantos outros. Ela avançou
além dos personagens mais conhecidos e fotografou os trabalhadores de salões de
cabeleireiro ou que atuavam nos palcos de boates, uma boa parte deste retratos
realizados em seu estúdio improvisado, em sua própria casa, em um ambiente de
troca e cumplicidade, como dizem seus editores.
Além das imagens de Schwartz, o livro
exibe exemplares dos periódicos Lampião da Esquina** e Chana com Chana,
jornais de vanguarda produzidos pela comunidade gay e lésbica da época,
cartazes de filmes, como A rainha diaba e O beijo da mulher aranha, clipes de
televisão e fotos de acervos pessoais, dentre outros itens, que registram um
universo contestador dos padrões conservadores da época. Há um infográfico do
centro de São Paulo na década de 1970, com os principais pontos alternativos da
capital no período e um conjunto de papéis efêmeros com cartazes e cartões de
visita.
O escritor argentino Gonzalo
Aguilar e o brasileiro Samuel Titan Jr., que organizam o livro e a
curadoria da mostra homônima, refletem que ainda há muito o que estudar sobre a
fotógrafa, principalmente sobre seus primeiros tempos “pois muito rápido a
fotografia se impõe como vocação longe do hobby domingueiro.” Embora ao
participar de eventos, seu nome passe a ser conhecido, e, sem romper as
relações familiares, a vida doméstica e prática, ela passe a achar um lugar seu
para sua arte, explicam eles.
Já em 1974, expondo no
MASP, sua série de retratos de travestis e transformistas - uma pequena amostra
extraída de cinco anos de trabalho - fotografados em estúdio, a
iluminação preferida da fotógrafa, chama atenção por sua produção cenográfica e
teatral. Para os organizadores, Madalena Schwartz neste momento cruza um
limiar, que seria de ordem estilística, ao ingressar em um território que foge
“de um certo bom gosto, seja ele pictorialista ou vanguardista, haurido no
Foto Cine Clube Bandeirante.” Suas imagens trazem uma retórica do excesso
e da ambiguidade que se irriga contínua e alegremente de signos colhidos nas
searas do pop e do popular, do “alto” e do “baixo”, do camp
e do kitsch.“
Outro limiar, de ordem
humana e social, em sua produção de uma cultura estabelecida, com personagens
como escritores, professores, intelectuais, ligados ao lado mais culto, que,
como afirmam Titan Jr. e Aguilar, eram do gosto moderno e de simpatias políticas
à esquerda que se distanciaram da ditadura militar como cultura de massa,
são confrontados com um número considerável de figuras “mais ou menos
anônimas, mais ou menos célebres” que podia se ver em suas folhas de
contato, dedicadas ao universo travesti e transformista.
Chico Felitti escritor e jornalista paulista, autor do livro Ricardo e
Vânia: o maquiador, a garota de programa, o silicone e uma história de amor (
Ed.Todavia, 2019) conta que depois da exposição no MASP, as sessões do
Copan ganharam uma aura ainda maior de prestígio nos círculos da noite LGBTQ.
Transformistas e travestis apareciam em seu apartamento e nem sabiam como
chegaram lá. Figuras que trabalhavam em salões de cabeleireiros famosos
em São Paulo, que às vezes adotavam como sobrenome, o nome do salão em que
trabalhavam, como o De La Lastra, que atendia a elite paulistana.
Curiosamente, esta elite
não frequentava as grandes boates da época como a Medieval ou como Felitti
escreve “não passeava pelo Largo do Arouche às duas da manhã.” Para
ele, “criaram teorias sobre o mergulho underground daquela mulher já com
mais de 50 anos.” Entretanto, seu filho Jorge Schwartz explica que a
escolha de seus trabalhos era muito orgânica. “Ela tinha uma certa
insegurança de pessoas muito intelectualizadas.”, diz ele. Para a
fotógrafa, não havia nenhuma elaboração teórica nas tardes do apartamento do
Copan.
Madalena Schwartz, para
seu filho, que nunca chegou a presenciar alguma das sessões, era uma espécie de
ser humano que se entusiasmava com as pessoas. Havia uma atitude ingênua de
afeto, de abertura e também de querer falar. Isso fazia com que as pessoas mais
jovens estivessem ao redor.“ O que explica a singularidade de suas
imagens, algo de certa forma inocente, buscando apenas a possível estesia que
ela sempre encontrava, algo que não existe mais na fotografia contemporânea,
cujo objetivo se tivesse esse mesmo elenco como tema, seria apenas a
problematização do assunto ou a cansativa verborragia política e pseudo
ativista.
Imagens de Madalena
Schwartz; coordenação editorial de Gonzalo Aguilar e Samuel Titan Jr.; Tradução
de Samuel Titan Jr., projeto gráfico de Raul Loreiro e Victor Kenji Ortenblad;
digitalização e tratamento de imagens de Kelly Polato e Núcleo Digital
IMS, impressão e acabamento gráfica Ipsis
# Infelizmente algumas imagens do livro não podem ser publicadas nesta plataforma devido a censura.
* Os Dzi Croquettes se destacaram pelo seu visual
exuberante, com maquiagem pesada e trajes femininos. Estrearam com Gente
Computada Igual a Você, com texto de Brunna Ribeiro Maciel.
Andrógenos, o grupo
chocou as autoridades da ditadura militar e seus espetáculos foram censurados.
A trupe se exilou então em Paris, onde estreou a peça e se apresentou no Le
Palace, onde foi um sucesso. Seus principais personagens são o coreógrafo
novaiorquino Leonardo La Ponzina, conhecido Lennie Dale (1954-1994), o
capixaba Cláudio Tovar, o gaúcho Ciro Barcelos e o paulista Paulo
César Bacellar da Silva (1952-1999), o famoso Paulette, entre outros
bailarinos e atores.
** O jornal Lampião da Esquina,
mais conhecido apenas por Lampião, nasceu na casa do pintor paulistano Darcy
Penteado (1926-1987), com uma série de amigos como o dramaturgo
pernambucano Aguinaldo Silva e o crítico cinematográfico belga Jean
Claude Bernardet. Foi um tablóide alternativo, que circulou no período da
ditadura militar entre 1978 e 1981, destinado aos leitores da então comunidade
gay. A publicação representou um grupo que até então não possuía voz na
sociedade, mostrando-se importante para a construção de uma identidade nacional
pluralista. O subsídio para a circulação veio por meio da criação de uma
editora também chamada de Lampião e de colaboradores. No total teve 38 edições,
incluindo o número zero. Inicialmente, cada edição, teve uma circulação
aproximada de 10 a 15 mil exemplares em todo o país.
* nestes tempos bicudos de pandemia e irresponsabilidade política
com a cultura vamos apoiar artistas, pesquisadores, editoras, gráficas e
toda nossa cultura. A contribuição deles é essencial para além da nossa
existência e conforto doméstico nesta quarentena *
“No one can tell what goes on in between the person you were and the person you become. No one can chart that blue and lonely section of hell. There are no maps of the change. You just come out the other side. Or you don’t.”
“To be treated with respect and tenderness while aroused…I mean that was a new experience. I had only seen men and women, but especially men, turn into these brainless excited animals when aroused. It was a really unique experience to be with someone who was passionate and into me but still extremely considerate and respectful. I don’t know…maybe I’ve just not been with the right people. Maybe the media never depicts it right. Maybe, just maybe… it’s not this animalistic instinct but connecting on pure emotion that makes it a beautiful thing.”
— Navigating my way through sex stuff // It’s okay to be an adult and still be very PG 13 // No age or time-bound pressure